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O 12º Simpósio Internacional de Ferrocimento e Compósitos Cimentícios Delgados: A Tecnologia na Escala Humana – Ferro12 foi realizado pela primeira vez na América do Sul, na sede do Crea-Minas, de 16 a 18 de julho de 2018. O evento internacional, organizado pelo Crea-Minas, Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) e Sindicato de Engenheiros no Estado de Minas Gerais (Senge-MG), reuniu especialistas dos Estados Unidos, Índia, Alemanha, Itália, México, Reino Unido, Cuba, Sérvia e Brasil. Na tarde do segundo dia, houve a mesa redonda “Arquitetura de Lelé Filgueiras: o design como uma tecnologia social”, além da palestra magna “Desenvolvimentos recentes e tendências futuras em sistemas de compósitos cimentícios reforçados por fibra natural”. 

A mesa redonda abordou o legado do carioca João Filgueiras, o Lelé, falecido em 2014, que se destacou por seus projetos de cunho social. Participaram do debate os professores da Universidade Federal da Bahia, Sérgio Ekerman e José Fernando Minho, o professor emérito do Instituto Superior Politécnico José A. Echeverría de Havana, Cuba, Hugo Wainshtok Rivas, e o boliviano Javier Moscoso Tejada. A mediação foi feita pelo professor da PUC Rio Flávio de Andrade Silva. 

Na discussão foi traçado um histórico da atuação profissional de Lelé durante a década de 80 nas cidades de Salvador, Rio de Janeiro e Abadiânia, onde utilizou a tecnologia da argamassa armada para desenvolver projetos que visavam a melhoria de vida das populações carentes. “Em Salvador, Lelé propôs a aplicação desta tecnologia na construção de contenções de encostas, escadarias, passarelas e abrigos pré-moldados, muitos deles icônicos e ainda existentes”, explicou Sérgio Ekerman. Em sua apresentação, José Fernando Minho mostrou o trabalho de construção de creches e escolas em Abadiânia (GO), e reforçou que as estruturas de Filgueiras eram calculadas para que fossem leves, permitindo a montagem manual. “Lelé construiu sistemas pré-moldados de fácil desmonte devido à cultura da população, que tinha um caráter quase nômade. Essas peças podiam ser transportadas, e o projeto também considerava o conforto térmico das pessoas, com sistemas naturais de drenagem e ventilação”, completou. 

O cubano Hugo Wainshtok Rivas contou que conheceu Lelé em São Paulo, também na década de 80, e que a partir deste momento se estabeleceu um intercâmbio intelectual e cultural entre os dois. Segundo o professor, Lelé ficou encantado com a tecnologia cubana de ferrocimento e suas aplicações, e isso o inspirou a desenvolver estruturas pré-fabricadas como cozinhas, escadas e sistemas de drenagens. Desde então, Rivas estuda e desenvolve novos sistemas de produção de estruturas pré-fabricadas para a construção de moradias, com o foco em peças leves e de baixo custo. “Lelé fazia obras econômicas, para o povo, e seus projetos me influenciaram a estudar o ferrocimento e mostrar os novos usos do concreto armado”, afirmou. 

Último expositor da mesa, Javier Moscoso, apresentou o conceito de bioarquitetura, ou arquitetura orgânica que, segundo ele, não deve apenas copiar as formas da natureza. “A bioarquitetura deve extrair inspiração da natureza, a partir da adaptabilidade e infinitas possibilidades que ela apresenta”, explica. Ele também mostrou algumas aplicações práticas de bioarquitetura, como construções sustentáveis na Argentina que utilizam malhas de ferrocimento, e frisou que a arquitetura deve ser uma “simbiose” entre sociedade e natureza. “Ela deve ter sentidos e deve ser sentida. E para isso, deve se basear em três pilares fundamentais: o social, o econômico e o ambiental”, concluiu. 

Inovações na utilização de fibras naturais em compósitos cimentícios 

No final da tarde do dia 17, o professor da PUC Rio Flávio de Andrade Silva apresentou a palestra “Desenvolvimentos recentes e tendências futuras em sistemas de compósitos cimentícios reforçados por fibra natural”. Flávio contou como fibras de origem vegetal, como o sisal, o curauá, a juta e a bucha vegetal, e também de origem animal, como a fibra produzida pelo bicho-da-seda, estão sendo utilizadas para reforçar estruturas de cimento. “Testes preliminares têm demonstrado resultados positivos, porém a alta variabilidade dos materiais e particularidade de cada fibra impedem que a indústria adote essa tecnologia no momento”, comentou Flávio. Dentre as particularidades, estão as diferenças no teor de celulose, no caso das fibras naturais, resistência à água, durabilidade, elasticidade, e outros.

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