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Profissionais de diferentes áreas da Engenharia se uniram, em Minas Gerais, a médicos e fisioterapeutas, especialistas em terapia intensiva, para desenvolver um ventilador pulmonar inovador. Engenheiros mecânicos, eletricistas, de sistemas, de telecomunicações e de produção trabalharam no modelo, produzido pela Tacom, indústria com sede em Belo Horizonte. O esforço coletivo se deve a tantas perdas em UTIs, por conta da gravidade de pacientes de Covid-19, vítimas da pandemia do novo coronavírus. O engenheiro eletrônico e de telecomunicações Walison Ferreira Lima lembra que o desafio inicial era desenvolver um produto mais eficiente e acessível ao mercado, com peças nacionais para evitar perdas à produção em larga escala.

Walison Ferreira Lima: É importante enfatizar que todo o equipamento médico passa por um processo de homologação muito difícil. Obviamente, é um equipamento de suporte à vida. Então ele vai para um laboratório e passa por vários testes, como compatibilidade eletromagnética, testes mecânicos e de usabilidade. Tudo isso foi minuciosamente pensado e projetado. E é importante ressaltar o trabalho de engenharia que foi exemplar nesse projeto, pra gente conseguir vencer esse desafio.

O Inspirar está em fase final de testes para chegar ao mercado, após homologação pela Agência Nacional de Vigilância em Saúde (Anvisa). As análises são realizadas em centros credenciados pela Anvisa: o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), em São Paulo, e os Laboratórios Especializados em Eletroeletrônica (Labelo), da PUC do Rio Grande do Sul. O diretor de mercado da Tacom, Marco Antônio Tonussi, destaca que o trabalho integrado fez a diferença.

Marco Antônio Tonussi: Na realidade a gente tem um corpo de engenheiros atendendo uma solicitação clínica. Eles nos dizem, olha: precisamos é isso. Dai para baixo a solução é toda de engenharia. Desde o desenho, a parte do projeto físico entrou muito engenharia mecânica, a parte do desenvolvimento do corpo de válvulas entrou muito mecânica de fluidos. A parte de engenharia eletrônica, que é muito utilizada no equipamento. O ventilador é todo digital, diferente de todos os demais. Ele é praticamente todo digital. Só não pode dizer que é todo, porque tem fluidos, pressão, então tem a questão pneumática. E no digital é intensamente utilizada a engenharia eletrônica, a engenharia de sistemas. (corte) Acho que o feeling de engenheiro é isso: ele vê um problema e dá uma solução de engenharia. E a partir da técnica, a partir do domínio da física, eletrônica, da mecânica, desenvolve uma solução para resolver aquele problema. É da essência da Engenharia.

Médicos intensivistas responsáveis pela operação dos equipamentos nas UTIs deram suporte técnico à produção do ventilador. Profissionais como fisioterapeuta Marcelo Beraldo, doutor em Pneumologia pela USP que atua nos Estados Unidos.

Marcelo Beraldo: Existe uma normativa internacional que todas as empresas que fazem ventilador mecânico em uma normativa específica. Para isso passei para eles, então se eles conseguirem criar um produto que chegue bem próximo ao que fica igual normativa, eles criaram um produto que dá para usar nos pacientes. E não deixando de ser um entusiasta disso tudo, mas é que é importante todo mundo lembrar que esses pacientes são graves. Existe todo o ambiente de terapia intensiva onde você tá lidando com a vida com a morte. Se o ventilador mecânico entrega um parâmetro inadequado, um volume corrente mais alto, ou uma pressão mais alta e só aumenta a mortalidade do paciente. Isso está acontecendo em nova York, aqui nos estados unidos.

O ventilador pulmonar produzido pela Tacom vai chegar ao mercado por 25 mil reais, valor seis vezes menor do que os respiradores utilizados no mundo. O primeiro lote, com 2.500 equipamentos, já está reservado para hospitais e unidades de saúde de Minas Gerais. Metade deste volume será doada pela FIEMG, financiadora do projeto. A outra parte será adquirida pelo Governo do Estado. Marco Antônio Tonussi acredita que produção deve dobrar, a partir da homologação pela Anvisa. Já há 10 mil pedidos de compra para os ventiladores mineiros, inclusive de clientes do exterior.